quinta-feira, 8 de setembro de 2011

DEBUSSY ( Claire De Lune Clair de lune Claro de luna )

O homem morto
é aquele que só tem vida para trás
- não para a frente
( Vida pretérita não é vida
apenas alegoria de vida
metáfora para a alma morta
sem clorofila e outros glicosídeos
industrializados pelo violinista verde
a um tempo um boticário
e um hábil farmacêutica
dono de uma farmácia de manipulação
- um herborista enfim
herbolário ervanista )

O morto desquita-se da vida
que é o vegetal no ser humano
o qual faz a flora e o fauno
funções do corpo anatômico e fisiológico do fauno
olvidado nos compêndios de medicina e biologia
ou antropologia forense
Possui apenas memória de vida
na alma do retrato
- ponte de luz e sombra
dispersa no tabuleiro de xadrez
com o pé escuro da noite
e o pé claro do dia
a pisar as casas no tabuleiro
- relojoeiro
joeiro a joeirar

Ser de vida pregressa
sua vida é iconográfica
geometria de alma escapista
também verbal
de papel manchado de signos
desenhos em nanquim
- longe do vegetal
do verde vitalício
excepto até onde for pintar as bactérias
sua obra surreal por mãos de Joan Miró
e outros seres verdes naturais
atentos nos miosótis
teimando não serem esquecidos
( "Não-te-esqueças-de-mim"
é a letra da canção lendária
que geme o pobre miosótis
já planta a medrar no Jardim do Éden
primitivo corpo vegetativo do homem
- definido na onomástica como Adão
o Adão onomástico )

Não vegeta sobre o solo
( para clarinete violino terra fresca
com cheiro forte de raiz de erva daninha viçosa )
não mais é vegetativo
- o sinal é negativo para o vegetativo
e não passeia os cabelos crespos pelas ervas
com o pente da brisa fagueira
penteando folhas defraudadas ao vento
qual bandeiras de navios piratas
com bandeira negra hasteada
no navio do capitão Barba-Roxa
ou de algum corsário ou flibusteiro
piratas do Caribe
do mar do Caribe
o mar dos Caraíbas
- autóctones aborígenes indígenas
em pé de guerra contra os alienígenas

O sistema nervoso vegetativo
ao cessar o fluxo vital
o qual fui na água
- rio em cachoeira no sangue
procede à falência dos nervos e órgãos
( Pára os Órgãos dos organistas Buxtehude e Bach )
ao perder o vegetativo verde
na parada ou quietude incômoda da água
que não mais flui ("fluminense") em longo e doce riacho
- fluído indo para baixo
aonde o mar brame e espuma
( sem altitude na ""baixada"" dos Países Baixos )
O simpático e automático ( autônomo ) sistema nervoso
cuja função precípua é alimentar um berço de mar oceano
com uma berceuse composta por Debussy
pensa e nutre os demais sistemas
- pensa a vida
e sabe da alma
e do corpo humano
uma mescla de espaço preenche de matéria
e tempo dinâmico ou energético
- Entretanto o homem morto
que ficou deitado em cruz pelo caminho
é um objeto que perdeu a planta
e a semente angiosperma ou gimnosperma
espargiu pelos caminhos verdejantes ou ressequidos

O homem morto
não partilha do pistilo da flor campestre
portando não está presente na rede vital
que é vegetal nos primeiros passos invisíveis
de uma forma arbustiva a medrar
ou um tronco de árvore a se entortar
no frenesi por raios do sol
porquanto alma é verde
derreia-se pelo verde
- verde clorofilado
afinado pelo violinista verde
e o azul no céu
tocando uma berceuse cerúlea
antes que se proceda à calefação das trevas
e venha célebre montada num alazão
a amazona cuja missão é anunciar de anjo e trombeta
o apocalipse feminino que se avizinha
na ponta dos cascos com ferradura
batendo em ritmo o tambor do solo
( ou solo de tambor
no ritmar das patas do cavalo bravio relinchando pavorosamente
enfatizando que as bestas são convocadas
para porfiar ferozmente e até a morte
na guerra do Armagedom )
solerte e paradoxalmente entregue à própria sorte
e aos sortilégios das feiticeiras
- tudo antes que seja meia-noite
e surja o anjo exterminador
empunhando a espada justiceira
e o exército dos demônios
em legiões romanas
sustente a batalha até a alva
desmaiar no céu
que antes era treva
e boca de treva
a devorar cor
de anã vermelha

Sem sistema nervoso vegetativo
simpático e parassinpático
- carente desses sistemas de pensar a vida
construir arquitetar e manter a vida
hermética na alma
assim o homem morto
não pode mais pensar verde
pensar vegetal ou vegetativamente
refletir e defletir o verde na alma
pintada dentro de um verde invisível
com tinta pra semblante de taitiana
que Gauguim não pintou legível em espectro
não deixou pensada e relatada
mas apenas em nuances de cores do verde
extraído do ciclo vegetativo
que engendra a vida
e a engenharia da alma
( A engenharia da alma é mecânica
move-se no sentido vetor do latim
e na força em aceleração de Newton
o filósofo natural junto à Darwin
que também pensou a vida em natureza )

O homem morto
dependura-se no verbo e no retrato
porquanto sua vida é um artefato
sem alma na concha
- concha acústica
aonde se pensa foi parar o som do mar
no vento rascante

O morto é visível em seu tempo
apenas cercado pelos objetos do seu tempo
que mantém seu corpo metafórico ou em holograma
na jaula da iconografia ou da hagiografia
através dos móveis e utensílios circundantes
circunstanciais
que fazem o tempo
com mãos de carpinteiros e contabilistas
cercando-o de objetos e artefatos
os quais o daguerrótipo flagrou
como resquícios e relíquias no corpo do tempo
quando vivo o homem
a mirar do fundo do retrato
a cantar no fonógrafo
quedo no museu do som
sem as cordas das ondas senoidais ou vocais
registrando a voz guardada no relicário
- dentro do ouvido interno
que escuta o que alguém já ouviu
quando estava com o corpo imerso no tempo
- banhado pela água do tempo
que lhe dava alma
pingando vida na chuva
( O fonógrafo é um ouvinte do tempo
que capta a frequência do homem morto
canta e ouve com ele
junto ao ouvido de quem continua vivo
porquanto o fonógrafo é um ouvido externo
que promove a intersecção entre vivos e mortos
- artefato que guarda o tempo incólume
na Baía de Baffin
no Golfo de Carpentária
ou no mar Cantábrico )

Aquele que pereceu
é um ente inexistente
enterrado no ser
- com alma arraigado no ser
porém não alma natural
mas alma artificial
plantada no discurso
que recolhe e doa essências
onde não mais há existência
do ente fenomênico
que partiu o coração das cinzas
no charuto e no cachimbo
que faz o vento fumar
no evolar e enrolar da fumaça
em volutas espiraladas
que denuncia os caminhos
e a dança ou balé do ar
um bailarino com corpo de vento

O homem morto
Ah! o homem morto!... :
Este ser não mais existencial
teve a vida dissecada por conceitos
concepções filosóficas sobre essências
pois o morto é apenas um corpo sem porto de alma
sem visita de fantasmas
sem existência
sem prática do existencialismo humanista e ateu ou agnóstico
que caracteriza o sábio incréu
pois o filósofo sempre é céptico
diferentemente do parvo
sempre crédulo
e pronto para mudar de crença
conforme a política filosófica instante
no momento vento que passa
pelo om do coqueiro
e do coco que cai
no solo para coco
sopro e instrumentos de cordas no vento
- o vento é templo para música

A morte é uma realidade trágica
para dois poemas
- um poema trágico
ou canto do bode
que pode ser de Pã e dos sátiros
- enfim o canto não do cisne
a celebrar a morte
mas do fauno a afirmar a vida
e conceituar a alma em latim
porém não em significado cristão
mas sim em sentido de latim pagão de Roma imperial
sob césares tenazes e corruptos
Por fim o outro poema é o cômico
uma ópera para rompante de bufão italiano
- ópera bufa
originária da comédia da arte
e da comédia e sátira grega
com Luciano de Samosata no frontispício
e outra obra que traduz a ironia que perpassa o pensar grego
fluindo do racional ao irracional
desequilibrando Shopenhauer e Nietzsche
em tempo desagregado
do homem gregário
face ao morto solitário
ou em solitude corporal

A natureza em flor para o homem vivo
é o paraíso com serpente peçonhenta
- flora e fauna
no imaginário incapaz de ler símbolos
enroscados dentro dos signos
que os gregos tinham ao evocar o deus Pan
o grande sátiro
o bode meio homem
o fauno romano
- enfim um ser divino
porque ente natural ou silvestre
e social no culto religioso
que é o rito da tragédia
- um canto para um deus
ou para vários deuses
pois é a natureza em pelo eriçado de luxúria
que subjaz em inúmeras divindades
- subjacentes divindades
floradas no fauno

Hoje atua a superstição ingênua e totalitária da ciência conceptual
que não sabe ler o fauno
nem tampouco reconhece
a anatomia e fisiologia do fauno
antes a ignoram
por preguiça de desvelar o código subjacente
que assinala a semiologia do fauno

Inspirados e ancorados na obsessão cristã
sobre a monogamia
apresentam e cultuam tão-somente o corpo da deusa
ou corpo de mulher
que ficou sem a companhia de um deus no panteão natural
( e sem sexo consequentemente!
ou com sexo para boneca inflável...:
no uso sagrado da camisinha-de-Vênus )
quando surgiu os conceitos e onomástica para flora e fauna
vegetação e animal
em menoscabo ao princípio fundamental
de macho e fêmea
princípio da gênesis
e da razão suficiente nos filósofos
( eleatas estóicos cínicos idealistas realistas materialistas
pragmáticos ... de filosofia maior ou menor
consoante a necessidade contextual
que veste e reveste a alma
no que urge o tempo
sem mugir nem tugir evidentemente )

A realidade greco-romana
expressa em mitologia
( antiga ciência com poesia
ou ciência com alma
ciência viva
ou ainda filosofia
do filósofo natural à la Darwin ou Newton
ou da filosofia maior de Aristóteles
cujo objeto de estudo é a física ou natureza do fauno
e a metafísica ou pensamento humano
expressão que o compilador do filósofo cunhou
ao sair da física do estagirita
e o pensar do fauno sob o sistema nervoso vegetativo
através das artes poéticas e plásticas
e também da geometria
ciência que mensura o objeto metafísico ou apriorístico )

O estudo do animal enquanto fauno
do corpo do animal sob o corpo metafísico do mito
sendo a mitologia a metafísica primeva dos antigos
um corpo de estudos para pensar o que não é física ou natureza
consoante o "deus" ou a "deusa" seja da mitologia grega ou romana
Afrodite ou Vênus
Esta avoenga anatomia do corpo humano
ao mesmo tempo exprime o vegetal
presente no macho e na fêmea
porquanto é o vegetal o primeiro animal
ou animal lento
de gestos em outro ritmo dentro do tempo
gesticulando em outro espaço para olhar
e o animal
que é o vegetal lépido
livre da raiz
que o prendia ao solo
( A anatomia e fisiologia do fauno e da flora
pode ser estudado dentro do corpo humano
na semente ou sêmen do macho
que é o fauno romano
da indústria extrativista do mito
e no ovo da vida
objeto vital
que expressa o animal o vegetal
no animal fêmea
enquanto flora
na forma poética
e delicadamente poliforme da deusa Flora
ou energia quântica
consoante o violino empunhado pelo homem no tempo inventado
aventado para evento de vento nas narinas sopradas pelo oboé
arcano musical
no coro das Musas com o violino )

Hoje se despreza o fauno
ou forma zoomorfa do ser humano
ou os debuxos da idéia antropomorfa da divindade
presente no homem e na mulher
pela operação da mitologia
nas formas do fauno e da flora
em atenção ao princípio fundamental de macho e fêmea
na dança da natureza
que une fauno e flora
no amor sexual do homem e da mulher
primitivamente uma paixão
expressa na vontade do macho e da fêmea
que buscam se realizar no sexo
e neste dar à luz outro ser

Não obstante o bom senso
prevalece o contra senso
tamanha e tacanha a estupidez científica
transliterada para a onomástica
porquanto não mais o Fauno exprime a natureza do animal
no corpo anatômico e fisiológico do homem
bem como o vegetal
que é onipresença na folhas que circunda a cabeça do fauno
e a cornucópia à mão
pois a demência cristã
que tudo invadiu e perturbou gravemente
enfim, o imaginário sem tato para a arte e a natureza
na ciência cristã
apenas passeia pelo conceito de flora
a deusa da vegetação
ou diva vegetal
ou divindade presente na realidade pelo sistema nervoso vegetativo
que tudo cria e cura
graças ao poder inenarrável da criança miraculosa
( Todo o poder da criança
é o poder de Deus transliterado )
Todavia e contra toda perspectiva filosofante
hoje sob a ciência subserviente ao cristianismo
sobrevive apenas como objeto mental
a duplicação estéril e espúria do feminino
a ignorar a fertilidade
e a necessidade de paixão sexual
do mundo vegetal que está imerso nas matas do sistema nervoso simpático
parassimpático ou autônomo
com piloto natural e automático
autônomo piloto
que guia o sexo do homem
ao sexo da mulher
no princípio que move o universo
com flora e fauno
- e não flora e fauna
( não flora e fauna!
duas expressões para a feminilidade!
- uma aberração do pensamento )
excepto se a opção sexual se orientar no sentido da Ilha de Lesbos
onde se deu a poesia de Safo
que canta o amor entre mulheres
ou do homossexualismo na Grécia e em Roma

O homem morto perdeu a alma
ou teve sua alma retirada pelas narinas
e colocada numa ânfora
e junto à alma retirada cirurgicamente
veio tudo o mais para o exterior
ficando dentro apenas uma disfunção
em mefítica podridão
sob os bálsamos da múmia

Perdida a alma
que é a vida ligando tudo
colando o pó do barro
ou os cacos da ânfora ou o alabastro despedaçado
buscou a idéia
outra forma de alma
que não obstante a forma
não tem conteúdo de alma
não possui vida nem morte
existe e não existe simultaneamente
porquanto é uma mera concepção humana
um pensamento se procurando
no ser que cria o homem vivo
com a alma enterrada no barro do corpo humano

Enquanto idéia
o homem morto é tão-somente
a expressão da idéia em si
fechada em seu circuito ou diagrama esquemático
sendo uma idéia efetivamente algo universal
a simbolizar o homem universal
o qual de fato não existe
uma vez que tal homem
é todo homem ou todos os homens
ou todo homem enquanto indivíduo
separadamente ou insulado do contexto
o que não precede à existência
mas sobrevive apenas em essência lógica
escrita e apta para existir enquanto história
( glifos e hieroglifos e geoglifos nos genes
ou signos genéticos vivos
que se escrevem a si
escritores, auto-escribas que são do corpo humano
cuja arte passa de pai para filho nesta guilda )
e portando ao representar ao idéia de todos os homens
e joeirá-la individualmente
concomitantemente não resta na conta nenhum homem
apenas uma concepção
de que se ocupa a razão
um conceito desenhado
na fina geometria árabe da álgebra
que descansa em belos arabescos
e cálculos tão abstratos
que não são nada
ou então é zero ou menos zero
e também tudo e infinito
simultaneamente e no mesmo espaço

Por fim o homem morto
traz à baila
desde os primórdios
do primeiro morto
a deitar irremediavelmente por solo
a expressão que ficou na lenda do miosótis
a qual exprime uma eufêmia primeva e milenar
a sussurrar `a boca do moribundo
ou do amante preterido
que súplice implora pateticamente
para não se esquecerem dele
quando se perder no azul miosótis do céu
- um mausoléu acima
da cova rasa
a brincar com as ervas daninhas dos baixios
aonde descerá seu corpo
já sem anatomia e fisiologia de fauno
nem guirlanda para a noiva
( uma idéia poética para sexo
casamento reprodução desejo luxúria
e outros demônios de Fussli
que assustam o pobre menino cristão
no quarto escuro ou assombrado!
- sempre Íncubos e Súcubos
na pornografia da Inquisição espanhola!
pois somente assim se justificava
bater o martelo para condenar inocente bruxas
que nem eram bruxas
mas meros conceitos de bruxas )

Por fim e para por fim
- o homem morto
não ressuscita mais
mesmo que fosse cristão
daqueles mártires no Coliseu
servindo de entretenimento a Nero
os nobres e o povo de Roma
( Eles só ressuscitaram na realidade do latim cristão
que cultuava uma alma sobenaturalista )
Nem o latim de Roma
o latim oficial dos eruditos romanos
escrito e falado por Júlio César e Cícero
Ovídio Lucrécio Horácio e Virgílio Romano
que poderia ressuscitar
- de fato não o pode de fato
( "poderia" é verbo indicativo no tempo e modo de inexistência
ou impossibilidade fáctica de existência
apenas possibilidade teórica
ou no ser que o homem fabrica
como o conjunto das coisas
com os objetos e fenômenos naturais
e artificiais no homem
em seus sentidos e significados )
pois conquanto seja o latim
uma língua morta
- apenas um outro homem morto
ou uma mulher morta
sendo língua ou conjunto de signos e símbolos
reunidos pela mente humana
que as arrebanhou dentre os artefatos culturais
- sendo portanto o latim apenas uma língua morta
o que equivale a dizer : um ser humano em signos e símbolos
um ser humano tecnológico
um ser humano alienado no artefato que inventou
não obstante esse fato inconteste
- o latim não tem mais contexto
para ressuscitar enquanto língua
porquanto não está mais na teia da vida
na teia tecida pelos poemas alcançados pela língua
não tem como ressuscitar a aranha
ou a vida simbolizada no aracnídeo "tecelão"
apto a tecer uma teia pontificial
que seja ponte ou liame
entre a alma morta na antiguidade clássica
e a alma vital presente no mundo contemporâneo
alma coeva
Tal tarefa é impossível
mesmo sendo o latim
tão-somente uma língua morta
nada mais que um homem morto em signos e símbolos
com a cruz cristã
cruzando as pernas irônicas
sobre a pedra tumular
à beira da estrada

Do exposto pode se concluir
que nem mesmo uma língua
que é apenas um trapo de homem feito de signos e símbolos
não sendo um ser vivo
não trazendo u fauno dentro de si
pode ( não pode!) ressuscitar dos mortos
e voltar a estar entre os vivos
- imagine um homem
- o homem morto
voltar à vida
arrastar a alma que se perdeu no ar
de volta à inspiração das narinas ansiosas
ou sair da hóstia
tal qual um pintainho do ovo
retomando caminho a pé descalço
neste mundo hostil
com hostes de bárbaros
e hóstias de padres da igreja
a gemer "amém"
na eufêmia infinda
que prostra o homem
semelhante a uma fêmea no coito...
exercendo o santo ofício
ou o sagrado ofício da prostituição
antigo rito de purificação e sacrifício

O homem morto
não é mais o homem
perdeu-se do ser
perdeu o ser
não pode mais dar o ser seu
às coisas que ele transformava em objetos
no entanto continua no ente
presente no corpo cadavérico
que se desmancha paulatinamente
até restar apenas a caveira e os ossos
onde repousa em travesseiro final
sem fronha alguma
nem sono ou sonho
ou pesadelo pesaroso nos olhos
- até que o esqueleto junto com o crânio
desapareça imiscuindo-se na história da rocha
- estela escrita com geóglifos
na língua do fóssil
- língua morta
latim de povo morto

domingo, 28 de agosto de 2011

CONFESSOR (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia onomástica )

O poeta se escreve
- escreve para si mesmo
e não para outrem
nem tampouco para a tampa tamanha da posteridade tacanha
- um solipsismo de solipsista fanático
solidão em solitude
atitude eremita
com o caranguejo-ermitão
sem termos pelos ermos do profeta no deserto
buscando a ermida ou o eremitério
enfim a tebaida
por ser mui vulnerável
não ter carapaça

Os pósteros que se...!!!...
- assim esgrima aquele que se esculpe no ar
com uma geometria que se mensura
em signos materiais
e símbolos intangíveis e tangíveis
conforme a conta contábil
dos significados transcritos para o alegórico
em outra codificação para códice
- com cânone, sem cânone
canhestro estro do cânone e do cânhamo

O escritor é um Auto da Alma
- um Auto da Compadecida
o Auto da Barca do Inferno
que destina seu texto
para o fundo de seu ego
que é uma em âncora
de navio fundeado
na baía do escriba
Não se destina a olhos ávidos de curiosos leitores
roedores de textos
traças de alfarrábios
bibliotecários de Alexandria...

O erudito se corresponde consigo mesmo
na trilogia dos signos e símbolos
que enredam a história
( terceira parte da trilogia )
numa rede de teias para as aranhas presentes na narrativa
cuja primeira voz ou personagem e protagonista é o escritor
quiçá o único
no vazio aberto na casca e carapaça do corpo dos demais
que perderam o corpo e alma
para a trama do dono do teatro :
o poeta trágico ou satírico
épico homérico feérico
As outras personagens coadjuvantes
outras "ostras" em ostracismo
abrem-se no vácuo da casca do coco
e depois do espaço da casca
no vazio maior onde está a carapaça do coco
que armazena água
e massa branca comestível
- da alvura da areia que pisa a praia
com sandálias havaianas
quando a ilha é o Havaí
- Hawaii Hawaii
que não é aqui
é por aí alhures
( A carapaça do coco
tem a forma abaulada de um crânio humano
Endocarpo e mesocarpo
são arcabouços onde se aloja a polpa
- branca como a água branca
do coco-da-praia coco-da-baía
na Bahia cocada
Dentro da carapaça do coco
Por ali passa todo o universo
vindo de longe
e voltando para bilhões de anos-luz
sem que a água se mova um milímetro
sofra nenhum abalo sísmico ou sérico
nos seus eletrólitos
O coco sabe e tem notícia da galáxia mais distante em luz
conquanto não conheça a galáxia
mesmo porque não possui forma erudita de comunicação
Outrossim a galáxia mais longínqua
sabe e tem notícia do coco e do coqueiro
Por isso o poeta não escreve para ninguém
nem mantém uma correspondência de amor romântico
com algum mineral de outra Nebulosa
conhecida ou desconhecida
perscrutada pelo olho ou ocelo da barata )

O trovador a versejar em solo na vetusta Provença
- provençal e providencial
faz a bem-amada sonhar que é para ela
aquela ode retumbante
a descer nos cabelos encaracolados da cachoeira
a cantar outra ode
para bode Pan faunos e ninfas
com a lira de Ovídio e Horácio
a flauta de Pan
e a lira mais lírica que houve
e ainda se ouve
no ouvido do tempo
sem olvido no Letes
- a lira de Orfeu
jamais dada ao olvido
em paradoxais trocadilhos
com estribilhos

Porém para o filho ou filha
a berceuse suave
em pianíssimo
ouvindo Chopin
que é o pianista mais refinado para poesias românticas
- indo aos claros de luar com dedos de Debussy
a tocar ternamente na face do pequenino
da pequenina que dorme
- o sono dos pequeninos
Ah! o sono dos pequeninos!
- o sono das pequeninas e pequeninos é um sonho!
inenarrável depois que cala a berceuse
e a noite cala fundo
no calado da calada
rumorejando silente o rocio
em ouvidos moucos
loucos no arroio da madrugada
- riacho de orvalho límpido )

O rapsodo e profeta se inscreve no que escreve
- no círculo inscrito está escrito
descrito descritor
Entretanto não são destinatários
da carta do bardo
outro que não o próprio bardo
- o próprio remetente
ou emitente da mensagem cifrada
ininteligível aos outros
em epístolas para romanos

O aedo não tem interlocutor
e o que escreve
penetra no silêncio da poesia
e não sabe à poesia
mas à maresia
pois é impossível tocar na poesia
que jamais pode ser escrita
mas apenas vislumbrada na alma
de longe no horizonte idílico
no barco descendo o rio São Francisco
tocado pelo idílio da correnteza
e do remo sem pena de rêmige
Escreve num código hermético
com pena negra e pesada nas tintas
procurando esconder milhares de segredos
de si mesmo para si mesmo
pois para aqueles que finge sinceramente que escreve
gostaria de confessar
todos os seus pecados
e assim se aliviar com o confessor
do fardo pesado
a carga da gravidade

Contudo o leitor também não lê o aedo
ou o lê a medo
com a sensação da aparição iminente do deus Pã
o imenso e pavoroso Fauno dos bosques
que pode surgir abruptamente
como uma mamba negra
e subitamente inocular a peçonha letífera
por a morte em viagem no sangue
- num batel em travessia do mar vermelho
Portanto o leitor lê a si mesmo
se decodifica na pedra de Roseta
sendo Champollion de si
na escritura do aedo
no copta do poeta
desenhado na estela de Roseta
geometrizada no desenho lido pelo sábio fauno
que leu a pedra
decifrou o enigma da esfinge na estela
porquanto um fauno
ou inúmeros faunos é uma leitura decodificada da natureza
- do mais íntimo e recôndito em natureza
mais que a física e a metafisica de Aristóteles
que criou miríades de faunos na sociedade e na cultura
espargindo a sabedoria do fauno
que se centra em si
aonde vai e alcança seus sentidos
quando captam o território
até onde captam objetos
ali é o seu território
que embora pareça restrito e mapeado
limitado ou delineado pelo mapa ao alcance dos sentidos
mitigado ou reduzido pela capacidade da sensibilidade
é o universo inteiro
encerra todo o cosmos
dado num pedaço aparentemente irrisório
em um espaço que cabe num favo de mel
porquanto a totalidade integral do universo
tecido de galáxias e Nebulosas
está já presente integralmente na mínima parte
na abelha e colmeia ou em solitude
no átomo e nas partículas subatômicas
da química orgânica ou inorgânica
em tabela periódica de Mendeleiev
- o sábio e erudito russo de barba-russa
com perfil de Sileno

Nada é óbice no entanto
a que o leitor comum
de parcas letras e escasso conhecimento
leia o que não está próximo ao veneno da mamba negra
ou ao derredor do pavor que ocasiona a mera citação de Pã
o Fauno silvestre Silvano
- silvo de serpente peçonhenta
com a morte ostensiva na ponta do dente
Por isso o vulgo que lê
subjugado no cabresto
apto apenas para decodificar a vulgata
após a exegese e hermenêutica de seus pais espirituais
- os padres da igreja
cuja erística é devastadora
( de qualquer igreja ou instituição que os comande
não enquanto homens
porém na função de obedientes escravos ou servos da gleba )
- o vulgo ama o que lê
e não o que está escrito
mesmo porque o que está escrito
é um bilhete ou rito de passagem
do escritor a seu ego
ilegível ininteligível
infenso às investidas da erudição
excepto para os mais perspicazes exegetas
e os Champollions máxime da poesia de um Goethe
- máximo expoente da sensibilidade poética
e da inteligência filosófica e científica

O poeta é tão-somente um subscritor
daquilo que foi extraído dele
do fundo do vale e do campo vegetal
florescente em seu âmago
e trazido à lume pelo Fauno
do filão de sua alma

A alma do poeta é um Fauno

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

INCONSÚTIL (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia etimologico )

A morte de um amigo...
- com a morte ex-amigo à vista da gávea
avistada do alto da gávea
dá-se o fenômeno do homem morto
fenomenologia que rasga a túnica inconsútil do espírito
e mata o lado boreal do homem vivo
que ficava do outro lado do rio
- do rio de sangue do homem morto
quando este era vivo
e fluía para o mar vermelho

A perda definitiva da vida de um ente
com o qual compartilhamos o mundo
significa o embaçamento de um reflexo
na lâmina d'água
- o baque na água!!!
do corpo do suicida
que suicidou-se sem aviso prévio
abruptamente
enquanto os peixes mordiscavam o anzol
( A morte é em si
um suicídio corporal
ou corporificado no cadáver jazente )

É o fim de uma memoria de si
livre de si
despojada do ego
com canto e cântaro em outro ser
- É o esboroar do alter ego
o derradeiro sinal da alteridade
cujo território distava até o outro lado do ser
no campo mais ao norte ou ao sul
- com a alteridade vislumbrada no espelho partido
entre as montanhas de um pseudo azul
no quarto da lua que sonha o quarto crescente
ou o quarto minguante de lua sorrindo
com a boca do gato de Alice
numa abstracção de lua e céu nocturno
( Chopin ao piano
apascentando o noturno pastoril
com avena no sopro do pastor )

A perda de alguém próximo
na proximidade do delta do rio
que dobra o Nilo
rio e profeta do deserto
O Nilo são dois rios correntes
- um rio de água
e outro de crocodilo do Nilo
Todavia tal perda é um fato
que bate forte no espírito de quem fica
a ver o morto
- observar um ser humano envolvido deixar de existir
passar para o outro lado da vida
ou da alma
sem rio Nilo que o banhe
- a banhar e alimentar o sangue
- o rio Nilo que é uma água dúplice
água no rio e no corpo do crocodilo do Nilo
mas não mais no pó do sangue do morto
cujo passamento o levou para a outra margem do rio
e do crocodilo
- das duas águas vivas
O homem morto em pó
foi exilado para o lado com anti-matéria
- anti-matéria de alma
que não tem já em si
matéria alguma
senão a energia
que a sustem suspensa no corpo
agarrando o pó
que a mão da água não mais segura firme
na altura do céu
- enquanto o céu é um chapéu azul
para a mulher vaidosa
porém cheias de vida
transbordando alma
pela água em corredeira

Abandonado pela água
e com o espírito num enclave
na Pedra de Roseta do momento
que jamais poderá ser decifrada
pois não há tantos Champollions assim
dentre os homens comuníssimos
porquanto são os papalvos
que constituem o cerne social
fazem fluir o rio da vida social
no seu mísero cotidiano
sem ritmo circadiano
- o homem morto
é um peixe morto descendo a cachoeira
pois o que é já não importa
mesmo porque já não é
senão o nada que desmancha o corpo
com ação de bactérias e moscas gulosas
ávidas por carne em putrefação

O passamento de um irmão
ou um amigo de décadas
é uma abrupta ruptura de um vínculo
construído pela paixão no tempo
regada na água à clepsidra
e na areia à ampulheta
gota a gota
grão de areia a grão de areia
uma dana na água da clepsidra
e na areia do deserto
ajuntada dentro de uma ampulheta
ou Relógio de Areia
nebuloso na Nebulosa no céu noturno
( Que toque Chopin
um breve estudo ao piano )
É outrossim navegar separado
cada um num veleiro
no mar criado em meio ambiente de clepsidra
em bioma de ampulheta

Qual memória de menino
que se esvai nas bolhas de sabão
a transportar a alma
para longe do corpo
abandonando o espírito morto
assim é a vida a se esvair paulatinamente
caindo da altura do pó
em queda de anjo desidratado
se desmanchando em pó
perdendo-se no sopro de oboé do vento
que tange o pó para longe
a descair da altura da figura geométrica
que desenha e mensura o pó no pó
- no rio de pó que é o corpo humano sem água
totalmente desidratado
na curva do caminho
ao pé do caminheiro
do andarilho dervixe
- anjo em pó

Tudo isso é mais
- muito mais que o luar pode iluminar
com facho no amarelo
ou no branco da ossada
que devolve à lua à lua
no reflexo que resta ao homem morto
conspícuo no branco dos ossos e da caveira
dos olhos em sua parte branca e no esqueleto
todo branco
a brilhar sob a luz do luar
que busca refletir-se e defletir-se
num olhar recíproco
de lua e ossos
que não podem se ver
- olhar cego
similar ao olhar vidrado do morto
revirado num esgar
flertando com a lua
num flerte macabro
- o diabo e a víbora
o basilisco e a mamba negra
numa troca de olhares
entre a realidade e a ficção
- de olhar de quem não se vê
não se olha
senão por outros sensores vitais
ou nenhum sensor
no caso do anjo morto
ao rás do chão no pó
- anjo desidratado
do demônio ao rés-do-chão
decompondo-se entre as ervas
que recebem o canto
e os dedos no piano do vento
ou da brisa refrescante
rascante

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PLANO (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia etimologico )

A caravela era um moinho de vento /
que o vento empurrava /
na travessia pelo oceano /

Um moinho de vento /
com inovador conceito /
e desenho geométrico para o vento /
dar outro empucho /
( Um sistema de propulsão ) /

Ao invés de por a girar as pás /
na paz de Van Gogh em arte sublime /
a caravela recolhia o vento /
na barriga que a brisa ou monção /
estufava na vela branca /
pintada com cruz escarlate /
que identificava a Ordem dos Cavaleiros do Templo /

As caravelas semelhavam moinhos de vento /
- era o desenho da época /
ou moda conceptual de então /
para engenharia eólica /

A função da vela na caravela
era conter parte da força eólica em vela alva /
que inflava na forma de parábola cartesiana /
a fim de recolher o vento /
em sua alvura sob cruz cristã carmesim /

Se não era vela a catar o vento no cata-vento /
eram as quatro pás do moinho de vento /
as quais foram imortalizadas na ficção de Cervantes /
ao narrar a tresloucada investida do cavaleiro da triste figura /
contra as pás do moinho do vento /
arrostando-as com fúria impertinente /
Oh! pobre e triste cavaleiro andante! /
- Dom Quixote de La Mancha /
imagem melancólica do homem /
que será o homem morto /
e o homem ensandecido /
a poucos passos do abismo /
que se abre para o salto no vazio /
para o suicídio /
sem asas ou cruz cristã /
que arremeda a medo o desenho de asas /
que não servem à concepção do vôo /
sem laivo ou veleidade de aerodinâmica natural /
incapaz de desenhar e conceber
um planador com piloto que não fosse mórbido /
tentando inutilmente /
planar com asas sobrenaturais /
que não estão no planador /
mas na geometria sobrenatural do cristianismo /
que põe kamicazes no céu /

As caravelas e o cristianismo eram cemitérios de cruzes /
partidas pela procela /
partindo na procela /
partilhando da procela /
- braços abertos /
no amplexo fatal /
com o vento e o tempo /
- contra o vento e o tempo! /

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

BÓREAS (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia etimologico )

Não tem mais memória de mim
no homem morto
e sempre seremos o homem morto
quando o tempo voar para além dos plátanos
de folhas lobadas
vermelhas no outono
- para a América do Setentrião
dos silvestres ventos de Bóreas, o Titã mitológico
Adeus ao homem morto
- se ele não fosse ateu!

Hoje o homem morto
é o amigo que repousa entre as pedras
agora ex-amigo no temo para o discurso
tempo verbal
Neste tempo agarrado ao sol
qual radícula
o amigo ficou pelo caminho pisado de terra
na forma de rochas escarpadas
pendido entre as penhas
ou olvidado pelas rochas estratificadas
- simplesmente ao rás do chão!
entre os seixos do riacho rumorejante
que celebra a vida com a dança das ninfas nas águas doces
( doce feito mel em favos são as águas que banham a vida
entram alma adentro pelos subterrâneos... )
ou com os ossos do ofício da caveira
sob lápide ou cova rasa
caso não tenha havido cremação
pira funerária
com as cinzas marcando as horas finadas
no macabro relógio da morte
- sino rezando o responso de Santo Antônio
junto à vida que expirou
no derradeiro suspiro do moribundo
óbice a qualquer esboço de correspondência
pois finou-se naquele que um dia teve o sol sob os olhos
no cintilar do diamante da vida
no afiar da alma
cortando luz e trevas

Ele se recolheu à pedra e à treva
que sepulta o pensamento por dentro
transformando o corpo humano
hermético na morte
em sarcófago próprio
ou no mausoléu : o Taj Mahal
elegia ou réquiem em pedra
- massas submissas à arquitetura e engenharia da época e lugar
conquanto insurretas no mole da construção
à mercê da lei da gravidade

Aquele filão de lembranças do mundo
apagou-se-lhe definitivamente
- instantaneamente deixou de fazer parte do mundo
enquanto universo social, psicológico, politico...
senão na codificação da fotografia
( estela escrita e desenhada com signos de luz
- luz em pó no papel do retrato
que será cinzas caso ocorra qualquer luminosidade
fogo-fátuo )

A melodia, o timbre e o ritmo de sua voz
ficou no vozerio do fonógrafo
com o olhar perdido no daguerrótipo
ou para o daguerrótipo
onde também se encontra Alan Poe
flagrado definhando
a alguns passos da morte

Seu olfato fugiu em desesperado galope
para o frasco de perfume
imune ao assalto do vento
porém pronto a passear pelas narinas
nas trilhas odoríferas
que culminam num cosmos à parte
dentro dos laços indissolúveis
que permeiam as relações as mais diversas
e até aparentemente dispersas

Fechado na rocha granítica
não posso ouví-lo mais
nem tampouco falar com ele
cantar com ele o doce aroma da laranja
exprimida pela flor de laranjeira
porquanto continuo vivo
hermético na alma do ovo
ou no ovo que cerca a alma de vida
que se traduz em alimentação e respiração
porém ele perdeu o espírito
para a coleção de seixos na cachoeira
- para o moinho de vento que soprava
dois anjos de Van Gogh no nariz
de outro amigo comum
que outrossim e em outro tempo em casulo
ficou envolto entre trevas
no silêncio do sudário e bulário
esparso no chão da morte
leito de pó

Cada vez mais solitário
vagando vago e vagamente no vagalume dentro da noite
meu caminho de monge sobre a terra
vai pouco e pouco perdendo
aqueles que de mim poderiam ter memória
mas até de si estão esquecidos
mergulhados no rio Lete
Narcisos com face nua
refletindo nos ossos a lua
- branco espelho na treva
para amarelo ou branco luar
conforme o ritmo lunar seja de novilúnio ou plenilúnio
ou um tipo de lua falciforme e negra
que desce na garganta da noite
- que é uma gárgula na noite tempestuosa
uma Quimera em vigília na Catedral de Notre-Dame de Paris

Adeus ao homem morto
- se ele não fosse ateu!

sábado, 2 de julho de 2011

DIAMETRAL, OPERAÇÃO, ENGENDRAR, TESOURO, ESPECULAÇÃO...

O paradoxo amplia o sentido restrito da palavra antítese que, podemos
dizer simplesmente, é um paradoxo ameno ou de espectro com ondas
curtas. Ambas as palavras guardam um parentesco no dizer a realidade,
ao nomeá-la, burilam um conceito ou concepção similar, se não
semelhante. O paradoxo, na realidade, que é a existência não posta em
ser, mas já preexistente ou presente antes do nascimento do indivíduo
ou da espécie humana e animal, vegetal, mineral, enfim, anterior à
vida, com alma plantar, alma vegetal, na clorofila que destila o
verde, enfim, o paradoxo destrói ou desconstrói a idéia ou pensamento
por dentro, rói-lhe o interior, aniquila a lógica posta no conceito,
enquanto ser utilizado como instrumento humano para pensar e deslindar
a natureza existente, preexistente, anterior à concepção desenhada,
escrita, pensada, elaborada, realizada em artefatos e comportamentos
oriundos de uma noética fundada numa gnoselogia ou gnosiologia,
enfim, na filosofia, com sua gnose paradoxalmente agnóstica, às vezes
até pernóstica, e, concomitantemente, na religião, que arrebata uma
gnosiologia, a qual diverge diametralmente da gnoseologia.
A tese, berço vocabular da antítese, é, digamos, um paradoxo menor,
vez que cumpre ao paradoxo perscrutar o conhecimento e o expor em
toda a tibieza.Claro, há uma discrepância de etimologia entre tese ou
antítese, que é a mesma tese com o prefixo negativo ou “maniqueu”,
pois Parmênides, da escola eleata, descrevia no conceito da palavra
“doxa”, dando-lhe o sentido de opinião ou conjectura, ou seja,
ligando-a ao pensamento, mas, ao mesmo tempo, como era uma contradição
de todo o conhecimento, como colocava a erudição em risco, classificou
essa ilação de opinião ou conjectura, pois assim evitava a
desconstrução de todo o pensado, a extinção do ser, que é, enfim, todo
o pensado e todo o pensamento ou idéia do homem. A tese é uma posição
no mundo, alienada do pensamento e posta no mundo ou realidade ou
existência; enfim, um arrancar da essência ( do ser, do pensamento) e
transplantar para a realidade alienígena ao homem ou ao mundo interno
do homem :mundo de essências, ser, pensamento, memória, imaginação,
etc.; já o paradoxo é um pensamento perturbador do conhecimento, pois
o questiona radicalmente, conjectura, ousa conjecturar, expõe a
erudição nua, sem a segurança dos gestos escondidos nas palavras
confortadores, consoladores, com “Espírito santo!”, eivadas de
Espírito santo! : o consolador, aquele que revigora a fé nas coisas
invisíveis, repõe o homem num mundo confortável, seguro, livre da
morte e das pragas invisíveis nas guerras freqüentes dos vermes,
fungos, bactérias letíferas, vírus demoníacos, enfim, toda uma horda
de bárbaros hunos laborando para a morte e a besta.
O paradoxo dá idéia de uma realidade ( de toda a realidade ou
existência, no “anexim” o “corolário” de Aristóteles que diz sobre a
separação da existência e a essência) que contradiz, se não anula, o
pensamento essencial do homem, ou pensamento do ser que, quiçá por
isso, no dizer de Heidegger, nunca foi pensado depois do eleata
célebre, excepto numa locução de Kant sobre o ser enquanto “apenas uma
posição” ou tese, a engendrar a antítese de Hegel, Marx e,
consequentemente, a síntese, que é o espaço interno ou interior entre
tese e antítese, as duas polaridades do maniqueísmo exploradas pelo
idealismo.
Imaginemos um paradoxo das antíteses!: Não o há; o que há, no caso,
é uma viscosidade emblemática entre o paradoxo e a antítese, pois é da
natureza da antítese guardar, ser guardiã, por assim dizer, de uma
posição no mundo, um por o pensamento em oposição, ou do opositor,
trasladando-o do intimismo das idéias humanas ao exterior, onde
subjazem as coisas exteriores, das quais fabricamos o ser que moldamos
nelas, no fenômeno que molda o ente, a entidade que laboramos
culturalmente, mentalmente, mas sempre no âmbito da “cosmovisão” ou
visualização da comunidade envolvida pela tez da cultura, porquanto
as coisas do mundo são vistas ou percebidas por nós, humanos, seres
que fabricam seres, seres ativos a produzir ou reproduzir seres
passivos, seres originários da sua paixão, ou da paixão que pervade
sua cultura ou civilização, como invenções nossas e não na realidade
de sua existência, com o perdão da redundância óbvia, mas necessária à
ênfase da frase.
O paradoxo quebra a tíbia do conhecimento, “osso” frágil, debilitado
pelas incertezas dos princípios que, no fim, não têm base alguma senão
em sua suficiência : o princípio da razão suficiente é bastante
emblemático e ilustrativo ou elucidativo. Haverá alguma razão que seja
suficiente e para quê? Para soldar a tíbia que se partiu, a fratura
exposta? O conhecimento é uma fratura exposto, conquanto esse
aforismo, “anexim” ou “brocardo” seja sensacionalista, errático como o
cometa.
As antíteses dependem do referencial, um ponto de partido, um lugar
no mundo ou um “locus” mental, intelectual, filosófico, quiçá
impetrado pela eurística. Cada homem na Bíblia está em antítese com
outro homem; o ser é antitético ( e no mundo, enquanto ser vivo,
inteligência viva no paradoxo que a mantém em vitalidade e viço) , já
explora a maniquéia, é um explorador de maniquéia ( todos somos
Maniqueus confessos ou taciturnos), essa “máquina” do bem e do mal,
uma mostra evidente, na qual o que fica demonstrado é o fato
inexorável de que cada homem, individualmente ( cada homem só existe
enquanto indivíduo, mas tem o poder do ser ou de seu alvedrio, de se
tornar ou ser uma bifurcação expandida em paradoxos ) acha o outro
necessariamente mal : o mal, o lado escuro ou negativo do maniqueísmo
sempre é o outro, o “alter ego”.
O paradoxo é uma figura ( geométrica) do pensamento e,
consequentemente, do discurso, enquanto o paradoxo é o “geômetra” : o
pensamento que se pensa. A antítese mostra o lugar onde está o homem
em sua tomada de posição no mundo, ou seja, fora de seu ego, alijado
do seu ser, engajado no universo, contraposto a outro ser que está na
posição “tese”, que é, na palavra, a posição inicial, afirmativa, no
pólo do bem da maniquéia, enquanto a antítese apresenta a negação da
primitiva posição ou a posição do adversário, do diabo, do inimigo
ferrenho, do ferrabrás, satanás.
Nesta relação de alteridade, na qual há o rei e o bobo, o cortesão, a
cortesã e o bajulador, dentre outros, relação obrigatória e
proibitiva, coercitiva, neste ritual que produz a alteridade,
inevitável, necessária, essencial e existencial ao homem enquanto
indivíduo que partilha um comunidade que o protege, mas que também vem
a coibir a maioria de seus atos, que se chocam com os atos dos outro
no processo natural ou existencial e essencial, há a relação menos
social, mais natural, voltada para o silvestre, no nu da mulher que se
despoja das vestes para praticar o ato natural, o ato sexual, um dos
escassos momentos que ambos tem relação direta consigo e com o outro,
numa alteridade verdadeira, real, existencial, não essencial, tirado o
ser ; esta relação natural, não social, que há entre o homem e a
mulher, na conjunção carnal, é a única da alteridade natural, não
socializável possível.
Tão poderosa e preponderante é tal alteridade silvestre com a mulher,
único elo possível com a alteridade de fato, não teatral, sob rito e
mito natural, que, mesmo achando socialmente a mulher, posta na
maniquéia como mal exacerbado desde a Idade Medianeira, a Idade das
Bruxas, que punha a mulher como o que há de pior; no entanto, e talvez
por causa desse retorno ao natural radical que o ato me comum com a
mulher possibilite, para um homem sadio, não para um padre ou frade
negro doente, um dominicano enraivecido, embevecido pelo cinismo, um
cinófilo, cujo herói ou ídolo desconhecido por ele mesmo é o filósofo
cínico, o cão Diógenes, um ódio irracional pela mulher, que é o desejo
latente de possuí-la sexualmente e, paradoxalmente, por demência ou
alienação institucional, que o coíbe, que tolhe o padre em seus votos
de castidade e obediência tresloucada, conquanto seja a mulher é o
único ser humano que pode dar prazer sexual e prole.
A mulher... : o sexo e o prazer vital, denegado, abortado pela
loucura de que tanto fala Erasmo em sua diatribe. O homem que nunca se
põe nu em sociedade que, na pele do padre, envolto no hábito do monge
ou pela sotaina do frade medieval não se livra desta prisão que o
veste, da roupa, pode fazê-lo ou na solidão triste, mórbida ou na
relação com a mulher, quando o desvestir é conjunto e, portanto, mais
excitante. Essa loucura das vestes talares faz o monge, o frade, o
padre, o homem medieval e a idade média.
O paradoxo testa e atesta a fragilidade ou a tenuidade nas lindes que
separam os conceitos ou concepções-mapas, mapeadas pela cartografia
linguística. Até onde um conceito ou concepção tem validez ou é mera
especulação ou mapa-múndi? ou mapa do tesouro?
O paradoxo está fundado no maniqueísmo, doutrina gramatical, com a
a qual narramos, dissertamos, descrevemos um objeto. E tudo é objeto par
ao homem ou indivíduo referencial; aliás, sempre referencial, porquanto
não transcendemos a individualidade senão por concepções, mas não na
integralidade da realidade, na existência, onde os sentidos internos e
externos falam mais alto, é um alto-falante e um auto-falante.
No paradoxo sorites observamos que o conceito sobre um monte ( há montes no
relevo do direito também) termina quando? Quando o monte deixa de ser
um monte? No que, portanto, nos amparamos, senão na grande ou
categoria conceptual da grandeza escalar para definir o que é o monte
essencialmente? E na existência? também a grandeza escalar e o
parâmetro?
O sorites é esclarecedor da função da maniquéia nos conceitos. Só a
Maniquéia ( ou a Nicomaquéia ) apode engendrar conceitos, pois ela
polariza e o bem e o mal não importam em si, pois sé bem ou mal o que
o tempo diz pela língua do
homem o que é bom ou ruim, bem ou mal.No caso das polaridades
elétricas parece que o conceito de negativo está invertido,
socialmente, pois o negativo é quem move e o positivo é o atraído pel
pólo-motor ou pólo-criador, pólo-deus.
O maior paradoxo é este : o conhecimento não é o conhecimento, mas um
representação imaginária do conhecimento feita pelo ser humano, mesmo
porque o conhecimento não existe, é uma inexistência, um
inexistencialismo ( ateu?) posto de pé no ser
( discurso, lógica, filosofia , ontologia, epistemologia,
gnoseologia) pelo homem. O medico quando faz um diagnostico,
representa o conhecimento por meio da leitura dos sintomas ; eles, os
sintomas legíveis , exprimem a gnose ou conhecimento por sinais do
corpo : é a semiologia médica que, de fato, não está de fato
exprimindo o conhecimento, mas um palpite limitado sobre o que pode
estar ocorrendo e que não pode ser conhecido, pois conhecimento não
existe senão representativamente, em ato da razão e sensibilidade, no
teatro da razão e da percepção, enquanto leitura semiótica ou
semiológica, porém não enquanto conhecimento, que é uma instância, um
“locus” do homem e não um nicho natural ; o nicho natural é a
existência ou mundo real, universo, cosmos, coisas, espaço de coisas e
para coisas ou onde se acham as coisas capturadas ou captadas (
“caput”) pela sensibilidade no ato fenomênico.
Não se conhece o que não existe, e o conhecimento é toda uma
inexistência representativa da inexistência no lugar da existência, a
qual não temos acesso. É o conhecimento o magno paradoxo. Não existe,
ou seja, não está posto ou não tem realidade fora (ex) do homem ou na
existência. É um não-existente ou uma não-existência; contudo, é um
objeto, ou seja, algo retirado pela operação da essência das coisas,
tem um quê das coisas a engendrar porquês.
A essência ou ser é uma operação humana, ação do homem-operário,
inação do homem-filósofo, que contempla o “Theatrum Mundi”. O
inexistencialismo ( ateu?) é uma prerrogativa do homem, uma alienação
que induz ao conhecimento ; essa doutrina, fundada, como todas, no
maniqueísmo onipresente, ignora o mundo ou a exterioridade, fazendo
dela a interioridade paradoxal do conhecimento. Tal doutrina básica,
fundante, contrapõe os universos ( se os há fora do conhecimento) em
internos e externos, na dicotomia característica do maniqueísmo.
Entretanto, o que seria externo e interno, senão um paradoxo
grosseiro? Externo é o mundo, com as coisas fora do homem e algumas
outras coisas ( alimentos, bebidas, etc.) que entram dentro do corpo
do homem ou na sua mente ( doutrinas ); o que entra dentro ou é
objeto, no caso das doutrinas, ou é coisa, no caso das bebidas,
alimentos, etc. Ao menos o conhecimento, que é algo arbitrário,
convencional, similar às palavras ou vocabulário lexical, o léxico,
assim põe as coisas no ser ou o ser nas coisas, transformando tudo em
objeto, ao estudá-los ou pô-los em língua e linguagem e lógica, enfim,
na metafísica.
A essência ou ser ou pensamento ou discurso, a lógica “”logos”), a
metafísica, enfim, o que está fora (ex) do mundo (ex-mundo,
ex-universo, ex-cosmos, ex-coisa) em oposição diametral à existência
(ex ) que está fora ou no mundo ou fora (ex) do homem ou do pensamento
(ex-pensamento, alienação ) é a representação do conhecimento, fora
da esfera da existência ( ou dentro do homem ) e, portanto, no âmbito
do conhecimento, onde não existe (não ex) mas está; porquanto o que
existe enquanto coisas no espaço
( se há espaço no sentido de fora e dentro do homem, o que acumula ou
amealha mais paradoxos suscitados pelo discurso ou lógica ( a lógica é
um investir em paradoxos insolúveis ) é algo tão complexo que não pode
existir senão enquanto representação por redução ou abstração, que é
o que se encontra na literatura ou nas literaturas específicas.
O paradoxo do interno e externo interior e exterior, enfim, o
paradoxo do “ex” está calcado na doutrina do maniqueísmo, informa esse
corpo doutrinário. Caracteriza uma antinomia clássica que dificulta a
missão da comunicação nas várias formas das linguagens, pondo fora a
língua, conquanto a língua seja mais uma linguagem, mas também mais
que uma linguagem o que, paradoxalmente, pode servir para as demais
linguagens que nunca sabemos quando são línguas ou quando estão
cumprindo missão de linguagem. É o paradoxo sorites.
O conhecimento está expresso integralmente pela Maniquéia, na doutrina
do maniqueísmo, que nada tem a ver com Maniqueu ou outros mitos e
ritos que põem homens enquanto ser de ação, o que não existe, não está
na existência, mas penas nas anedotas da essência, que conta a
história mais por meio de anedotas filosóficas ou científicas do que
de fato, na existência, que não pode ser movida por nós, humanos,
senão tecnicamente, e com os limites da técnica ou tecnologia
sobraçada nas línguas e linguagens que perfazem, o corpo das
matemáticas, geometrias, álgebras, enfim, os vários “idiomas”,
“dialetos” “tatibitates” e outras idiossincrasias” matemáticas e
lingüísticas, semânticas e semiológicas, banhadas a ouro na filosofia
enquanto ontologia, gnoseologia, epistemologia e nóetica, que
constroem ou constituem esse corpo Franskenstein da língua e da
linguagem, que é, e última instância, o reino de onde emerge as
ciências, todas calcadas na filosofia ou naquele conjunto vasto de
conhecimentos ( ontologia, lógica, teologia, ontoteologia,
epistemologia, gnoseologia, geometria, matemáticas, sociologia,
psicologia, etc.), pois o maniqueísmo, sendo o que é, em seu ser,
posto no discurso e não na existência, senão pelo corpo do homem e
pela técnica e tecnologia nas matemáticas e outras formas de
engenharia abstrata, que antecede os artefatos culturais, originários
da técnica ou tecnológias, nada mais que uma doutrina que não
atende aos apelos veementes, instantes, da realidade complexa, maior
que o pensamento; ou seja, o maniqueísmo não atende que é real, de
fato, existencial, que é assaz complexa e não pode ser sequer
representado, senão reduzida em tese, no por ou posição do ser ou
pensamento no mundo.
O único conhecimento que temos é que o sabemos da ausência do
conhecimento através dos paradoxos que os sábios e eruditos levantam,
a fim de demonstrar a fragilidade e a limitação do conhecimento, algo
meramente erudito, fundado na prova do sábio, ou do saber ( o saber é
a prova do conhecimento, mas quem não é réprobo entre os homens,
quando seu interesse está em jogo?).
O conhecimento de fato é um longo acervo de paradoxos e pouco mais.
Somente o paradoxo pode inventariar a realidade ou irrealidade do
conhecimento que, embora válido no sistema ou circuito hermético da
erudição, não tem existência, não atinge ou é partícipe da existência,
não está na corrente da existência, é apenas um dado real ou das
coisas espaçadas.
O agir do homem na existência ou sub-existência é semelhantes, e não
apenas similar, ao agir da bactéria na mesma existência, uma vez que
ambos, homem e bateria, coexistem, estão no mundo ou fora de si, no
sentido paradoxal de que estar no mundo é estar ao desabrigo de si,
fora (ex) do que o homem denomina interior, mente, intelecto, corpo,
etc. e que a bactéria, pelo que consta ou nem consta, não denomina
nada, excepto se seu modo de denominar seja diverso do modo do homem,
numa língua ou linguagem em que fale mais o corpo do que noção ou
vocábulos abstratos.
O ato da bactéria somente parece diferir do ato do ser humano ( a
bactéria é, outrossim, uma ser humano, do mesmo barro do homem, mesmos
átomos e moléculas similares) porque o ato da bactéria é uno,
unificado ato e pensamento, enquanto no homem é premeditado, tem o
impulso inicial no pensamento, é um lance de espírito e outro de alma
: uma duplicada. No mais guarda semelhança, na proporção de cada ente.
Para exemplificar e “exemplar” : se alguém divorcia do cônjuge
marital ou uxório, o outro consorte fica em desamparo momentâneo,
susceptível, ou ambos, o ficam, e os estranhos, os seres “exógenos”
vêem a oportunidade e penetram na relação, destruindo ou
desequilibrando ainda mais os ex-companheiros, bem como ocasionado
mais problemas e traumas para a prole, então já meio perdida, agindo
da mesma com que age rapidamente a bactéria “Clostridium difficile”.
O ato do homem só difere do ato da bactéria e outros animais, nossos
semelhantes, porque, além de estar fundado na existência, nela
ancorado, também está estribado no pensando, que é um alazão tipo o do
herói do imaginário, Hércules ( Heracles), ou seja, é ato além de
realizado pelo corpo humano, também é “ato” imaginado e maquinado,
composto pela tênue “matéria” ou “energia” da inexistência, ou seja,
de algo que está apenas no ser que produz os mitos na literatura,
através dos poetas, que nos fazem poetas também ao produzir textos
para lermos e, destarte, exercitar o poeta que canta dentro de nós, no
canto esquerdo ou direito do hemisfério cerebral, nos lobos,
protegidos por osso contra cães maiores ou menores a rutilar na
abóbada celeste. Eis a grande e única diferença que o homem e o animal
apresentam.
A atitude do médico ( ou qualquer outro profissional na sua respectiva
área de atuação) ao fazer seu prognóstico é um ato fundado no
pensamento mágico, na experiência, no empirismo, doutrina que faz da
prova ( algo tão complexo e um autêntico paradoxo, pois no que se
prova passa antes pela comunicação e não temos acesso senão a esse
comunicado que, por certo, e quase sempre, é, no mínimo, uma colocação
arbitrária e unilateral do ser que fez a prova; a prova em geral não
vem do probo, homem difícil de achar, “avis rara”, porém do réprobo, o
iníquo escravo das doutrinas e dos valores subjacentes, subjetivas,
“subjetivadas”, que escravizam seu pensamento, que não é de um homem
livre, desinteressado, despojado, mas o mero “despojo” ou “espólio”
oriundo de uma alma morta, um espírito ou pensamento plantado sobre um
vegetal morto há tempos e ressequido pelo sol cáustico do deserto, que
“planta” uma prova de interesse, de uma parte interessada na prova,
que comanda o ato probante e o provador venal, inflado à categoria de
pseudo-sábio, enfim, a prova produz ou perfaz inevitavelmente e por
sua natureza social, um ciclo de iniqüidade, o qual retrata a
sociedade no daguerrótipo e no fonógrafo ) pois, devido á complexidade
do tema abordado, a infinidade quase matemático de um infinito
matemático sobre a etiologia da doença, é ta vasta que a possibilidade
de acertar com o diagnóstico é um ato pernóstico, presunçoso.
Na realidade estamos, sem o saber, e muito menos conhecer, numa guerra
entre germes e outras criaturas invisíveis, hospedeiros e comensais,
que podem nos ferir de morte da noite para o dia. Estamos no meio de
uma guerra furiosa, furibunda, uma batalha das Fúrias contra o Fados e
As Gorgonas que vão acabar por nos matar, mercê de uma “bala” perdida
( e tanta são essa malsãs balas perdidas! cotidianas) que nem
percebemos que todo dia podemos estar mortos em segundos, fora outros
acidentes e incidentes.
Em meio a essa selva que vem desde dos tempos das cavernas precisamos
um Jesus “ressuscitado” ( sem as aspas! : há boçais para crer ) ,
salvos do vermes da morte, um Cristo que esteja nos remédios das
farmácias, portanto para ser ingerido e salvar-nos a morte iminente em
cada instante; estamos, enfim, inseguros e nos agarrando á última
tábua de salvação, desde os temos primevos, quando o homem não tinha
qualquer remédio, senão corpo, que era seu médico, seu sábio,
feiticeiro, xamã, seu Cristo, enfim, o salvador eterno e primitivo,
embutido e escondido nos genes que gemem de medo a cada estação.
Recorrente é o mito do conhecimento.
No que tange aos gregos, que inventaram a filosofia ( a única
filosofia é a grega; não existe outra filosofia, mas outras formas de
pensar, similares ao pré-socráticos, que, em Parmênides, e outros, já
são filósofos, mas estão, em Empédocles de Agrigento e Heráclito de
Éfeso, mais como pensadores ; minha família vem de lá, da Grécia, da
Hélade; para constar isso basta ler a onomástica em alemão ( os
topônimos são rastos por onde pisou um povo, representado por um ou
mais indivíduos da nação, etnia ou língua, ao seguir a onomástica do
lugar, como no caso específico da Groelândia, terra cuja onomástica
aponta quem esteve naquelas plagas ao nomear o lugar, deixando à
mostra sua língua nos radicais que compõem a palavra, um idioma
exótico, de um povo que veio de longe, a explorar, dentre outros
inúmeros exemplos.
Outro paradigma : o patronímico Griebel, ou Gribel, que pode ser uma
corruptela ou uma variação do nome original ( ou de algum dos
originais do sobrenome ) , designa, na língua alemã, a família ou um
indivíduo do sexo masculino, possivelmente, que vieram da Grécia, ou
Hálade, ou em alemão : Griechenland, os griechisch, na qual a raiz
grie e land são óbvias; no latim é græcus. Todavia, os "gregos" se
chamavam de helenos, os filhos da Hélade, em Ésquilo, o gênio
trágico.Hellas, Hellada, no latim; no grego: Hellás. Aliás, gregos e
italianos se mesclam no complexo das relações étnicas-culturais.
O etnônimo latino Græcia vem do grego graikós, com os quais se
seguem os respectivos epítetos no gentílico. Eruditismo calcado no
latim, a língua erudita por excelência; aliás, a palavra "erudito" vem
do latim.
Mas isso só tem valor de descoberta erudita; não outra qualquer, nem
qualquer ilação varada na vanidade.
Claro que toda essa arenga ou arrazoada arranjado num passa de
conhecimento, ou seja, algo falho, pontuado de senões ; a família ou
um homem que veio da Grécia ou Hélade para a Alemanha, teria chegado
antes em qual país? E aqueles que vieram da Grécia vieram de que
lugar, antes de vir para a Hélade? Todos esses quesitos são
pertinentes, demonstram o paradoxo do conhecimento, que é sempre
arbitrário, por mais livre que seja, e que e não pode ser de outro
feitio, pois do contrário não teríamos sequer a representação do
conhecimento, uma vez que o conhecimento mesmo, de fato e de direito,
não tem fim e não acabaria jamais de ser aplicado ou exposto. Ele, o
conhecimento, esbarra com a limitada da física, química, temporal.,
espacial do homem; logo, é impossível um espaço ou tempo “humano”
aonde possa ser inserido o conhecimento, mas apenas sua representação
sintética é possível.

Toda tese só passa a ser necessária se levantar-se contra ela uma
antítese ; sem antítese não há tese, nem tampouco síntese : este outro
paradoxo do conhecimento. Se um homem entendesse o outro, na sua tese,
aceitasse-a passivamente e pacificamente não haveria construção da
representação do conhecimento, mas dogma, que é a presunção
fossilizada de verdade que a Igreja, o governo, o estado, enfim, as
instituições e o direito, enquanto entidade que dá força de lei ao
dogma. O conhecimento é o desentendimento, a dúvida, a descrença no
outro, o cepticismo, a fé em si.
A validade e validação da tese está em sua antítese, que a reconhece
enquanto perturbação ou turbação crítica, agressão.
O paradoxo é o conhecimento; pois no paradoxo é o conhecimento de que
não é possível conhecer, mas apenas representar o conhecimento como um
ator ou agente social, de uma forma poética, filosófica, política,
dramática, enfim, com os ritos e mitos disponíveis na literatura e no
teatro. Aliás, o teatro aqui, bem como a literatura, tem sentido
amplo, não envolve somente o teatro convencional, mas também o rito
dramático da Igreja, do Estado com seu Direito, da ciência, etc., bem
como as respectivas literaturas filosóficas,médicas, científicas,
enfim, mitológicas. O teatro, em lato senso, é o rito e o mito
generalizado nas instituições que objetivam alienar o homem pela
repetição incansável de ritos e mitos na suas mais variegadas e
diversificadas formas , não obstante serem o mesmo mito e o mesmo
rito, cuja forma é a mesma e a modificação e apenas uma improvisação
necessária para atender ao cliente e ao que vendedor de ilusões.
O povo não precisa de verdade ou conhecimento, mas sim de comida,
alimento, vestuário, saúde, educação,diversão, entretenimento : pão e
circo romanos. Nem imagina para que serve os paradoxos e nem tampouco
que eles, os paradoxos, é que constituem o único conhecimento que
podemos apreender enquanto seres finitos e temporais, sendo o
conhecimento vasto demais para caber numa vida finita e eivada de
percalços.
Os paradoxos lógicos na matemática tendem a ser mais abundantes visto
que a matemática é uma ciência instrumental para ação; seno arte
ciência ( filosofia) e parte técnica, a matemática tende mais a agir
ou é utilizada como agente no lugar e como vestuário de agir do homem
do que língua ou linguagem. É uma linguagem que age, ou seja, a
matemática é o ser humano agindo por linguagem ou por meio da
linguagem acurada da matemática.
As matemáticas sofrem desse paradoxo essencial.Tem função bijetora : é
um sujeito agindo sem ser sujeito humano, ou seja, sem ser sujeito de
fato, sem ter sujeito ou ser subjetivo no ato precedente ao fato ( ato
precede fato : história do ato é o fato, o feito, o realizado, etc.)
mas, paradoxalmente, um sujeito no que se nomeia como tal um ente que
age, um sujeito e não um objeto, sendo que a matemática é um objeto do
homem e para o homem e pelo homem., mas pode agir enquanto sujeito
abstrato, mesmo tirando o homem do mundo, numa ação sem corpo humano,
porém como corpo teórico ( “corpus Aristotelicum”).
Construída tecnicamente e racionalmente para ser uma ciência de ação,
as matemáticas podem agir por meio de um rito abstrato, sem qualquer
impulso humano, vez que elas trazem em seu bojo o rito e o mito, a
máquina de agir, posta em abstrato, e de pensar, no mito, pois todo
pensamento é um mito fundado necessariamente num paradoxo que o
constrói e o destrói simultaneamente.
Nada no pensamento abordamos sem o paradoxo, pois o paradoxo está na
origem e na essência do conhecimento ou da dicotomia entre
conhecimento e existência, ser posto pelo homem no discurso, nas
linguagens e fora da linguagem enquanto outro ato humano que não é
linguagem e linguagem ou semiótica quando o homem silencia o discurso
e as supostas linguagens no ato de agir sem pensamento, no ato zen, do
budista, ou na ioga do guru que, não obstante, mesmo mediante todo
esforço, carrega a linguagem corporal nos signos anatômicos e
fisiológicos.
No maniqueísmo o mal sempre é o outro, sendo o outro sempre também o
mesmo outro no outro; ambos são o outro considerado o ponto
referencial do sujeito; um sujeito submete o outro sujeito a objeto,
rebaixo-o a tal, mas o processo é inverso quando o referencial parte
do ser que antes será objeto posto pelo ser do outro, porem, quando
posto pelo ser em outro ponto referencial o sujeito e o objeto mudam
de posição e o ser também; no entanto, a coisa permanece, pois por ela
não passa o ser, mas somente a percepção que produz a parte do ser
denominada sensibilidade ou percepção. Este é outro de infinitos
paradoxos que,paradoxalmente, não são infinitos, porquanto infinito é
mais um paradoxo adicionado ao monte, do qual fazemos um paradoxo
sorites.